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A mitologia grega continua a inspirar a cultura popular: da adaptação cinematográfica da Odisseia realizada por Christopher Nolan (2026) a videojogos como Hades II, God of War ou Immortals Fenyx Rising. Olimpo: Zeus contra os Porquinhos parte do mesmo universo, com bastante menos seriedade.

Curiosamente, os porcos e os javalis não são um capricho nosso. Aparecem em alguns dos episódios mais conhecidos dos mitos gregos.

O Olimpo, casa dos deuses

O monte Olimpo existe mesmo: fica no norte da Grécia e, com 2917 metros, é a montanha mais alta do país. Para os Gregos antigos, era no seu cume, escondido pelas nuvens, que viviam os doze deuses olímpicos, sob a autoridade de Zeus.

Ali, os deuses alimentavam-se de ambrósia e bebiam néctar, alimentos que lhes garantiam a imortalidade. É precisamente a ambrósia que os porquinhos do nosso jogo tentam roubar.

Zeus, senhor do raio

Filho mais novo de Cronos e Reia, Zeus escapou a ser devorado pelo pai, libertou os irmãos e liderou-os na guerra contra os Titãs. A sua arma, o raio, foi forjada pelos Ciclopes. Depois da vitória, coube-lhe o céu; a Posídon, o mar; a Hades, o mundo dos mortos.

Zeus era também o protetor da hospitalidade (xenía). O que torna a nossa história ligeiramente irónica: no jogo, ele trata os visitantes à trovoada.

Circe e os companheiros de Ulisses

O episódio mais famoso com porcos está no canto X da Odisseia, de Homero. Ulisses e a sua tripulação chegam à ilha de Eeia, onde vive Circe, feiticeira filha do deus-sol Hélio.

Circe recebe os marinheiros com um banquete, mistura-lhes uma poção na comida e, com um toque de varinha, transforma-os em porcos — mantendo, diz Homero, a mente humana. Ulisses só resiste porque o deus Hermes lhe dá uma planta protetora, o móli. Confrontada, Circe devolve a forma humana aos homens e acaba por acolher a tripulação durante um ano.

No jogo imaginámos o que aconteceria se alguns desses marinheiros tivessem preferido continuar porcos — e ganhado ambições mais altas.

O Javali de Erimanto

O quarto dos doze trabalhos de Héracles (o Hércules dos Romanos) consistia em capturar vivo um javali gigantesco que devastava a região do monte Erimanto, na Arcádia. Héracles perseguiu-o até à neve funda, onde o animal se cansou, e levou-o às costas até ao rei Euristeu — que, apavorado, se escondeu dentro de uma grande talha de bronze.

É este javali que surge como chefe de cinco em cinco vagas. No jogo, não é preciso carregá-lo às costas: bastam uma dúzia de raios.

A Porca de Crómion

Menos conhecida, a Porca de Crómion era um animal feroz que aterrorizava a zona entre Mégara e Corinto. Foi morta pelo herói Teseu, no caminho para Atenas. Algumas versões dão-lhe o nome de Feia, o da velha que a criava.

O Javali de Cálidon

Quando o rei Eneu de Cálidon se esqueceu de Ártemis nos sacrifícios, a deusa enviou um javali monstruoso para destruir as suas terras. Para o caçar reuniram-se os maiores heróis da época, incluindo Meleagro e a caçadora Atalanta — que foi a primeira a ferir o animal.

Eumeu, o porqueiro fiel

Nem todas as histórias com porcos envolvem monstros. Quando Ulisses regressa finalmente a Ítaca, disfarçado de mendigo, a primeira pessoa que o acolhe é Eumeu, o seu velho porqueiro, que lhe dá comida e abrigo sem o reconhecer. Homero trata-o com enorme carinho: é um dos exemplos mais claros de lealdade e hospitalidade em toda a Odisseia.

E os porcos voadores?

Esses já são invenção nossa. Na Grécia antiga, o cavalo Pégaso tinha asas; os porcos, não. Mas achámos que um jogo sobre o céu do Olimpo merecia inimigos capazes de lá chegar.

E o Javali de Erimanto, na vida real?

O javali-europeu (Sus scrofa) que os gregos antigos tinham diante dos olhos era já um animal temível: machos adultos rondam normalmente os 90 a 130 kg, mas exemplares excecionais, caçados no Leste Europeu e nos Balcãs, aproximaram-se dos 300 kg — o peso de um urso-pardo adulto. Não admira que um animal assim tenha sido visto, na Antiguidade, como obra de uma deusa vingativa.

Nota: este texto é uma introdução simplificada. Os mitos gregos têm muitas versões, que variam de autor para autor. Para aprofundar, recomendamos a leitura da Odisseia de Homero, da Teogonia de Hesíodo e da Biblioteca atribuída a Apolodoro.

O néctar não se defende sozinho.Voltar à arena